Mamonas Assassinas: 20 anos sem a banda mais irreverente do rock nacional

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*Por Damy Coelho

Já começamos esta resenha lançando uma possível polêmica: sem sombra de dúvidas, a última banda de rock brasileira considerada fenômeno nacional foi o Mamonas Assassinas. Talvez seja difícil chegar a essa conclusão – afinal, como pode uma banda tão zoeira, que não se levava a sério, ser a última grande representante do estilo no Brasil? E bandas talentosas como o Charlie Brown Jr.ou Raimundos, que vieram depois na grande mídia e  também fizeram um enorme sucesso? Sem nenhum desmerecimento aos talentos que vieram depois, mas basta voltar vinte anos no tempo e lembrar como era a sua rotina na época: se você já era um pouco crescidinho, deve se lembrar de ligar a rádio e ouvir o hit “Pelados em Santos” – e não importa se você ouvia a “rádio rock” ou aquela de hits farofões: a música tocava em qualquer uma delas. E não era surpresa ouvi-la logo antes de um sucesso do Raça Negra ou de alguma canção romântica do Leandro & Leonardo. E no domingo, naquele almoço na casa da avó, quando a tia ligava a TV, quem é que é que aparecia? Bingo: Dinho e o seus companheiros de banda trollando o Gugu ou colocando uma peruca de mulher no Faustão – os dois programas de maior audiência da TV brasileira na época disputavam os Mamonas a tapa: a presença deles no programa era garantia de levar a liderança no horário nobre e ver o concorrente comer poeira. Nenhum outro grupo posterior conseguiu ser tão unânime e onipresente na mídia como os Mamonas Assassinas foram nos anos 90.

O Mamonas Assassinas era formado pelos carismáticos Júlio Rasec (teclado), Samuel Reis  (baixo), Sérgio Reis (bateria), Alberto Hinoto (guitarra) e o galã Dinho nos vocais. A banda já penava por algum destaque no cenário independente da época enquanto ainda se chamava “Utopia”, mas não tiveram muito sucesso na missão. A esperança veio quando o famoso produtor Rick Bonadio descobriu os rapazes, que, no momento, já estavam mudando o modo de fazer sua música: ao invés de seguir a fórmula de rock-engajado das bandas dos anos 80, eles decidiram incorporar a personalidade zoeira que eles já tinham nas suas  músicas. Seria um passo arriscado e uma atitude completamente nova. Mas em um momento em que a indústria fonográfica passava por uma crise (era o ápice da transição do LP para o CD) e o rock, por uma crise maior ainda (era ligar a rádio e só se ouvia duplas sertanejas ou os grupos de pagode que estavam virando febre), a única maneira de vencer seria buscar um modelo diferente e original. E foi isso que eles fizeram. O primeiro disco, “Mamonas Assassinas”, chegou às lojas em 1995 e, poucos meses depois, já batia recorde de vendas, chegando a levar o selo de diamante – o mais alto de vendagens da indústria na época.

As gerações mais novas, porém, podem ter uma impressão equivocada dos moleques-zoeira de Guarulhos: não se tratava apenas de uma banda que fazia piada com tudo. Ok, este era o tempero que o Mamonas carregava, o toque diferente: enquanto as bandas de rock antecessoras se preocupavam com letras engajadas e recheadas de críticas políticas, o Mamonas ia por outro viés: parodiava, como nunca antes se viu, a realidade do brasileiro classe média – que eram brasileiros que passavam perrengue como os próprios integrantes. Em meados dos anos 90, quando a nova moeda (o Plano Real) buscava uma estabilidade, levar a namorada pra lanchar no shopping e depois pegar um cinema não era tão casual e fácil como é hoje. Enquanto isso, a desigualdade social era ainda mais latente como é hoje: quem não passava por perrengues financeiros, não via problema em ostentar artigos de luxo completamente inúteis. Como dizia a famosa letra da banda:

“Você não sabe como parte um coração
Ver seu filhinho chorando querendo ter um avião
Você não sabe como é frustrante
Ver sua filhinha chorando por um colar de diamantes
Você não sabe como eu fico chateado
Ver meu cachorro babando por um carro importado”

Ao mesmo tempo, um famoso programa de vendas – que mais parecia um longo comercial – jogava na cara dos telespectadores produtos importados caríssimos, como um conjunto de facas Ginsu,  que só podiam ser comprados pelo brasileiro-comum-classe-média se fossem parcelados de várias vezes no cartão de crédito. Quem viveu os primeiros anos da década de 90 deve se lembrar dos números “1406” – que era o número de telefone da tal empresa de vendas, que era repetido insistentemente pelo locutor da propaganda.”1406″ foi ironicamente homenageado na música que abre  o disco homônimo de estreia da banda – é o título do primeiro hit dos Mamonas. Talvez você não se lembre da música por esse nome, já que ela ficou conhecida como o primeiro verso do refrão: “Money que é good nóis num have” – justamente essa daí que citamos a letra.

O melhor de tudo é que  banda conseguiu retratar isso sem soar como um manifesto sério anti-capitalista. A crítica virou uma letra bem-humorada que era repetida por crianças de 5 anos que não faziam ideia do quê estavam cantando.

Mas a pior de todas é minha mulher
Tudo o que ela olha a desgraçada quer
Televisão, microondas, micro system
Microscópio, limpa-vidro, limpa-chifre, e
Facas Ginsu
Eu sou cagado, vejam só como é que é:
Se der uma chuva de Xuxa no meu colo cai Pelé”

Várias das músicas do álbum fazem uma paródia bem humorada do universo capitalista. A “Chopis Centis” já mostra isso logo no título: o sujeito que quer impressionar a garota e a leva no shopping – esse lugar que a gente hoje frequenta como se fosse a padaria da esquina, mas que na época, ainda era uma construção gigante e imponente, uma novidade que todo mundo queria frequentar, mas nem todos podiam. O lanchinho na praça de alimentação virou verso:

“Comi uns bichos estranhos
Com um tal de gergelim
Até que tava gostoso
Mas eu prefiro aipim”

Mas a felicidade do consumismo retratada nas propagandas e vendida pelo sistema capitalista é jogada na cara, quando Dinho cita,sem pudor algum, o nome da mais famosa loja de eletrodomésticos do momento:

“Quanta gente
Quanta alegria
A minha felicidade
É um crediário
Nas Casas Bahia…”

Mas a irreverência dos integrantes não paravam nas letras.

Mistura de estilos

Já viu alguma banda misturar forró com heavy metal, pagode com música portuguesa e rock com forró? Antes dos Raimundos surgirem misturando o rock com ritmos nordestinos com maestria, o Mamonas já vinha testando a fórmula. Ouvir a faixa “Cabeça de Bagre” é passear por um riff inicial que parece tirado de um hit melódico do Metallica, depois passar por acordes de punk rock, de repente se deparar com um triângulo (!) e terminar com um riff da música do desenho Pica-Pau.

Tem também a ótima “Lá Vem o Alemão”,que parodiava as bandas de pagode que bombavam na época. Ela podia muito bem estar num disco do Katinguelê, se não fosse a letra extremamente bem-humorada, que zombava de um sujeito que perdeu a namorada pra um alemão que tinha um Escort. Quando chegava o refrão e a guitarra entrava, a gente não tinha dúvidas que só podia ser feita pelos Mamonas.

’em ainda “Sábado de Sol”, cuja simplicidade faz parecer uma música cantada no ônibus de excursão da escola pela turma do fundão. E também “Bois Don’t Cry”, uma referência óbvia à canção do The Cure, que tirava sarro da figura do corno. A melodia, por sua vez, lembra a música brega dos anos 70.

Com tantos elementos cativantes, somados à simpatia dos integrantes e ao famoso clichê “as pessoas certas, no cenário certo”, os Mamonas conquistaram o Brasil em poucos meses. O fenômeno foi interrompido no dia 2 de março de 1996, há exatos 20 anos, com a tragédia que matou todos os integrantes e fez o país ficar de luto. Mas o que ficou foi a imagem debochada que a indústria musical precisava e que o público queria – mesmo sem saber.

E não foi só de piadas que viveu a banda. No auge do sucesso, os Mamonas voltaram para a cidade Natal para, desta vez, tocar no principal palco de Guarulhos, com lotação de público do local. Foi neste momento que Dinho fez um discurso que misturou desabafo e raiva, criticando os empresários que não deram chance aos integrantes, quando eles ainda eram os jovens que tocavam na “Utopia”:

Não à toa, vinte anos depois,seguimos falando sobre Mamonas Assassinas. Todo o dia 2 de março,desde 1996, é só ligar a TV e ver algum vídeo antigo deles, fazendo piada vestidos de Chapolin em algum programa dominical. Mesmo com o sucesso repentino e curto, uma coisa a gente precisa considerar: os anos 90 precisavam dos Mamonas Assassinas. Todo o sucesso foi devidamente merecido

Fonte: CIFRACLUB NEWS