Fascismo e totalitarismo na magna visão de George Orwell

Por Rodrigo Constantino

Por Hiabo Rebello, publicado pelo Instituto Liberal

“A verdade, é claro, é que os inúmeros intelectuais ingleses que beijam o traseiro de Stálin não diferem da minoria que é fiel a Hitler ou Mussolini (…). Todos eles estão cultuando o poder e a crueldade bem-sucedida”.

George Orwell… um nome obrigatório para qualquer um que se interesse pelos grandes movimentos e fenômenos políticos e civilizacionais do século passado. Com seu nome de batismo, Eric Arthur Blair, oculto pelo seu famosíssimo pseudônimo, Orwell é um dos indivíduos de seu tempo que mais tiveram capacidade e sensibilidade para perceber o que estava acontecendo na política de sua época.

Seu famoso romance, 1984, pode ser “previsto” em seus artigos para variados jornais do Reino Unido, na primeira metade do século passado. Nesta organização brasileira chamada “O que é fascismo? E outros ensaios”, Orwell fala de política, sociedade, hipocrisia, cultura, literatura, filmes, moral e também procura teorizar sobre alguns rumos que o mundo tomaria após a II Guerra Mundial. Apesar do nome da obra, o livro não trata exclusivamente, ou tem um foco maior, nos movimentos fascistas da Europa do século XX. Os textos escolhidos, em sua maior parte, falam mais do fenômeno do totalitarismo, do comunismo, dos movimentos revolucionários e seus males, do que tem um foco direto no fascismo. De fato, apesar do título, não existe um único artigo presente na obra que defina o que é o fascismo.

Com vinte e quatro artigos escritos entre 1938 e 1948, podemos entender e observar parte das mudanças e convicções que o autor tinha nesse período de dez anos. Suas críticas aos movimentos revolucionários de esquerda são latentes já nos primeiros textos; o fascismo ocupa um lugar importante em apenas certas resenhas e críticas sociais, em que ele serve de exemplo da falta de moralidade e objetividade nos debates e ações políticas dentro do Parlamento Britânico, onde, por vezes, pessoas mais alinhadas à direita davam créditos ao fascismo.

Orwell não tem dó, e seu senso de realidade e honestidade intelectual o apoia em suas críticas: ele recolhe exemplos de grandes personalidades da política de seu país, durante a década de vinte, que deram apoio aos feitos de Mussolini acreditando que o fascismo seria um tampão para sanar o problema comunista; contudo, o autor, da mesma forma, não se esquece de salientar as comemorações que a esquerda fez quando Hitler e Stalin, juntos, fizeram um pacto de não-agressão e invadiram a Polônia.

A resenha sobre o livro Mein Kampf, de Adolf Hitler, pontua algo interessante. O socialismo e o capitalismo possuem algo que o fascismo não tem: uma visão em prol do prazer, da felicidade, que cai muito facilmente em um hedonismo. Ao ignorar a propensão humana para a violência, para o autoritarismo, tanto o socialismo quanto o capitalismo (embora façam isso com maneiras e objetivos extremamente distintos) procuram criar um mundo mais justo, feliz; já o fascismo investe na brutalidade humana, no desejo e no bojo que o Homem possui na e pela violência. Segundo Orwell, tanto o liberalismo quanto o comunismo falham em focar mais em uma visão muito hedonista do mundo – em um livre-mercado de Estado fraco, ou em uma Utopia de felicidade plena.

Existe outra crítica, mas dessa vez sobre um filme antifascista. O Grande Ditador, estrelando Charles Chaplin, é analisado em suas virtudes e defeitos, com acentuação no fato de que a trama da película se trata, no fim, do contraste entre um homem comum com o mundo dos professores, dos intelectuais – estes que podem, com muita facilidade, defender qualquer regime totalitário: algo comum em qualquer faculdade de humanas ontem e hoje. Para Orwell, o filme pode mostrar a cisão do mundo político e fascista para com a população mais humilde, mais cristã, que sabe o que é certo e errado.

O artigo que, enfim, é o responsável pelo nome do livro, não responde à questão que levanta, porém apresenta um dado interessante, pois pode ser visível no Reino Unido da década de quarenta, mas também em todo o mundo atual: a mania de chamar um inimigo político de fascista.

Os britânicos eram acusados de fascistas por sindicalistas e nacionalistas indianos, os conservadores eram acusados de fascismo, a política católica também, os comunistas, pacifistas, trotskistas, socialistas, nacionalistas, os que apoiavam a guerra… mas todos que se acusavam ou que recebiam a acusação de serem fascistas, no bojo da II Guerra Mundial, compartilhavam algo em comum: não davam a mínima para as descrições próprias das características econômicas e políticas do fascismo. Orwell aponta que existiam fascismos sem a característica antissemita do nazi-fascismo, assim como aponta que a admiração por Hitler também não consistia em uma guinada para o fascismo… de fato, “com exceção de um número relativamente pequeno de simpatizantes do fascismo, quase todo inglês vai aceitar ‘troglodita’ como sinônimo de ‘fascista’. É a coisa mais próxima de uma definição a que chegou essa tão abusada palavra”.

O termo “fascismo” foi degradado a um palavrão, destituído de todo seu aspecto político de fato. O mal que isso causa é a total falta de compreensão do significado real do que é seguir o fascismo. Atualmente, como na época de Orwell, a truculência política virou o mesmo que ser fascista… mas basta pensar alguns minutos para perceber o quão baixo e inútil é chamar qualquer violência política de fascismo: a violência partidária nasce com o século XX? Com os movimentos nacionalistas? Basta pensar um pouco para ver que não… a não ser que alguém tenha a capacidade de afirmar que Cézar, Henrique IV, Napoleão, Robespierre e o próprio movimento da Comuna de Paris eram fascistas… antes de o fascismo existir!

Mas o livro, como já dito, não se centra no fascismo. O autor se preocupa, muito mais, com o problema do totalitarismo e de como a ideologia política pode cegar ou nublar a moralidade, sanidade e a visão de mundo de um Homem.

Na primeira resenha da obra, sobre um livro acerca da Guerra Civil Espanhola (evento este de que o próprio Orwell participou ativamente), Orwell analisa um trabalho historiográfico de um esquerdista, Frank Jellinek, que apesar de considerar um pesquisador talentoso e sua obra em questão ser excelente, pontua algo interessante, para além de Jellinek: a respeito do trotskismo, Jellinek se comporta como um comunista, e como tal, não consegue ter bom senso. Os mitos, vilões e heróis comunistas mudam como que da água para o vinho, mostrando uma incapacidade de analisar a realidade – “a velocidade com que os anjos da mitologia comunista tornam-me demônios tem seu lado cômico” (…) “é preciso lidar com ele com certa cautela, porque o autor está pressionado pela necessidade de demonstrar que, embora outras pessoas possam às vezes estar certas, o Partido Comunista tem sempre razão. Não importa muito que quase todos os livros de comunistas sejam propaganda. A maioria dos livros é propaganda, direta ou indireta. O problema é que os escritores comunistas são obrigados a reivindicar a infalibilidade dos chefes de seu partido. Como resultado, a literatura comunista tende a cada vez mais se tornar um mecanismo de explicação de erros”.

Esse apontamento inicial de Orwell para a mentalidade comunista diante da literatura (creio que Orwell, apesar de estar se referindo a uma obra historiográfica, considere o mesmo para todo gênero literário possível) é o que irá se refletir em outros artigos, até mesmo em seu grande livro, 1984. Para o comunismo – e isso não mudou –, verdades objetivas não existem, apenas políticas corretas e não-corretas para com a ideologia, o partido.

Em outros textos, Orwell ainda aponta a mesma tendência, em diferentes situações, existente nos movimentos revolucionários. A força com que um agente revolucionário se gruda em sua causa, em seu meio, o modo como cria um endeusamento para com sua ideologia, desgraçam totalmente as capacidades normais que um indivíduo teria para ponderar certas coisas. No artigo chamado “A literatura e a esquerda”, existe a seguinte reflexão: seriam os esquerdistas capazes de sair de seu mundo político? Poderiam sair da caixa, romper a casca ideológica que assombra suas ações, suas mentes e seus juízos?

“Para um exemplo tosco, que comunista ousaria admitir em público que Trotsky é melhor escritor que Stálin – o que, é claro, ele é? Dizer ‘X é um escritor talentoso, mas é um inimigo político, e eu farei o melhor que puder para silenciá-lo’ é relativamente inofensivo. Mesmo que você acabe por silenciá-lo com uma submetralhadora, não estará de fato pecando contra o intelecto. O pecado mortal é dizer ‘X é um inimigo político; portanto é um mau escritor’. E se alguém diz que esse tipo de coisa não acontece, eu simplesmente respondo: dê uma olhada nas páginas literárias da imprensa de esquerda, desde o News Chronicle até o Labour Monthly”.

Se quisermos ser mais atuais e localizados em nossa plena realidade brasileira, podemos substituir os jornais esquerdistas do Reino Unido dos anos quarenta por quase todos os festivais de cinema brasileiros atuais (a exceção de um), que censuraram previamente o documentário O Jardim das Aflições, não importando a qualidade filosófica transmitida pela película, tampouco as características técnicas do filme.

Esse “defeito” na mente do revolucionário, muito bem trabalhado em 1984, pode ser visto em outra distopia, O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler. Em sua resenha sobre a obra de Koestler, Orwell resume a trama de um militante comunista acusado falsamente de ter traído o partido. No final, o protagonista se entrega, não porque se vê cansado das torturas, para acabar logo com o sofrimento, mas sim porque sua mente se dobrou para a vontade do partido: se este quer, deve ser real.

A falta da Verdade Objetiva nas mentes de vários esquerdistas é relatada em seus artigos. Transformar heróis em monstros, adulterar a História, ignorar fatos e criar falsidades sempre foram (e são) o modus operandi do revolucionário de esquerda.

Orwell também rejeitava o socialismo de tipo marxista, considerando-o incapaz demais, mecânico e carente ao retratar a realidade de fato. Mas ele ainda se considerava… um socialista. Sim: um dos homens que mais tiraram sangue dos cérebros de esquerda era de esquerda, se considerando um “socialista democrático” – algo que seria “parecido” com um PSDB atual, embora seja um erro chamar Orwell de um Social Democrata.

O autor chegou, até, a “prever” o nosso conhecido “socialista de IPHONE”, afirmando que muito poucos dos socialistas ingleses de sua época defenderiam de fato o que pregam, dado que uma revolução socialista, pelo simples fato de acontecer, abalaria toda a vida material desses intelectuais de esquerda, que dependem exclusivamente do sistema que querem morto – também relata algo que compartilha com o escritor russo Yevgeny Zamyatin, criador da distopia Nós, a qual Orwell resenha. Zamyatin, desiludido com a esquerda, fugindo do fascismo, teve um amplo contato com a esquerda francesa e, como Orwell, percebeu uma peculiaridade esquerdista: eles não tinham um contato, de fato, com a classe trabalhadora. Eram, normalmente, pertencentes às classes médias.

É impressionante o nível de conservação que as esquerdas possuem. Quase dá para dizer que, em termos de desonestidade, canalhice e pouca vergonha… a esquerda de ontem tem muito poucas diferenças com a de hoje.

Em um de seus textos sobre a esquerda e a literatura, como já dito, George Orwell comenta o quão patética é a ideia de rotular ideologicamente a qualidade deste ou daquele escritor. Poderíamos, com facilidade e razão, estender essa crítica para vários outros estilos de arte, ou para ciências, opiniões, constatações… Mas, para nossa atualidade, por que não jogar essa mesma luz para a direita?

Em épocas de convulsão política, mesmo as que não se mostram violentas, não é nada incomum os lados polarizados demonizarem-se. Como Orwell bem sabia, e bem soube mostrar ao mundo, existia algo nos revolucionários que, desde já, sistematizavam o assassinato da Verdade em nome da ideologia. Mesmo que a hipocrisia, a desonestidade e a canalhice existissem em várias correntes políticas diferentes, apenas na esquerda comunista, nos socialistas revolucionários, tamanha fratura para com a realidade era feita.

Outra coisa que podemos, devidamente, considerar sobre Orwell é seu enorme peso intelectual, sua capacidade (tão falada aqui) de enxergar a realidade, a Verdade. Se ele não era um liberal, um conservador, preferindo, ainda, um “socialismo não-utópico”, com claras admirações para a cultura geral e a moral cristã que banhavam a cultura popular, isso não significa muito. Mas como a direita não é, nem de longe, perfeita, é preciso dizer que certos erros existentes na esquerda também vivem na direita. Não é incomum, por exemplo, direitistas ignorarem autores de esquerda (embora seja mais comum um esquerdista nunca ter ouvido falar de um G. K. Chesterton ou um Russell Kirk, do que um direitista nunca ter ouvido falar de Theodor Adorno e Michel Foucault, verdade seja dita). Orwell, entretanto, pode ser uma seta a se seguir, na vida intelectual: ele lia da direita à esquerda. O que nós, brasileiros, redescobrimos (ou descobrimos) de poucos anos para cá, Orwell lia quando tais obras eram, praticamente, publicadas. Não é incomum, no livro aqui tratado, Orwell saber diferenciar os tipos de direitas existentes no Reino Unido. Ele conhecia T.S. Eliot, Chesterton, e entendia suas obras. O último artigo da obra, aliás é uma resenha de Notas para uma definição de cultura, de T.S. Eliot, a qual ele dá uma crítica negativa – Orwell não via com bons olhos o pessimismo característico dos conservadores; tampouco era ridículo, tentando taxar qualquer direita de “fascista”. Ele sabia da drástica diferença entre o conservadorismo e o fascismo.

De fato, posso dizer com segurança que, mesmo sendo um socialista, Orwell é um mestre, e assim deve ser pensado, tratado e considerado. Pouco importa se ele não era de direita, se não se afinaria com minhas concepções culturais e políticas. O que interessa é sua capacidade de atingir a Verdade.

Se existe algo com que a direita deve se preocupar, é com sua ignorância e arrogância. Não temos os mesmos males cognitivos e de caráter que a esquerda possui, porém não é por isso que iremos deixar de ter autocrítica, de avaliar nossos erros e carências.

Se, como parte de uma reflexão, aprendi e tirei algo de O que é o fascismo? E outros ensaios, é que julgar tudo a minha volta por um prisma ideológico é canalhice, estupidez e um sinal claro de falta de capacidade intelectual. Se, para aconselhar meus leitores brasileiros, puder acrescentar algo, é:

Vão ler bons esquerdistas! Leiam Graciliano Ramos, leiam a literatura esquerdista brasileira da primeira metade do século XX. Vão ler, apreciem uma boa obra. Acreditar que alguém como Ramos, por exemplo, é um escritor ruim em tudo pelo fato de ter sido um comunista, é um sinal claro de quão patética uma pessoa pode ser.


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